Entre o Vazio e o Despertar: Saindo do Limbo Existencial com o Uso de Símbolos Arquetípicos como as Runas
Vivemos em tempos marcados por uma estranha dualidade. De um lado, a tecnologia, a conectividade e o progresso oferecem ferramentas que antes pareciam inimagináveis; de outro, cresce o número de pessoas que, embora fisicamente presentes, parecem habitar uma espécie de limbo emocional e espiritual. Elas respiram, comem, trabalham, pagam boletos e até riem em ocasiões sociais, mas sentem-se como se estivessem desligadas do próprio centro vital. Como afirma Byung-Chul Han (2015), na sociedade do desempenho, o sujeito moderno é simultaneamente explorador e explorado de si mesmo, o que gera um esgotamento da alma, uma “fadiga de ser”. Este estado intermediário, onde não se está verdadeiramente vivo nem realmente morto, é um sintoma de uma desconexão profunda com aquilo que Jung chamava de Self , o núcleo central do ser, que pulsa com autenticidade e sentido.
Esse limbo não é meramente psicológico, mas ontológico. É uma desconexão do ser enquanto ser. Martin Heidegger, em Ser e Tempo (1927), discute como o homem frequentemente se perde na cotidianidade, vivendo de forma inautêntica, alienado de sua própria existência. Essa alienação cotidiana cria uma névoa existencial na qual a pessoa se adapta aos sistemas e rotinas, mas se desliga da potência criadora e transformadora que habita em si mesma. Quando o centro vital , o que pulsa, o que anima, o que confere direção e força , está adormecido ou desligado, resta um corpo funcional, porém vazio. Um sujeito que “funciona” bem socialmente, mas que internamente está congelado num estado de suspensão simbólica.
Despertar desse torpor exige mais do que motivação superficial ou discursos de autoajuda. Trata-se de uma tarefa arquetípica: o reencontro com as forças simbólicas que estruturam a psique humana. Jung (1964) afirmava que os arquétipos são como núcleos de sentido presentes no inconsciente coletivo, e que os símbolos são pontes entre o consciente e essas camadas profundas. Nesse contexto, as runas , símbolos ancestrais do alfabeto germânico e nórdico não devem ser vistos apenas como elementos esotéricos, mas como chaves de ativação de memórias arquetípicas e caminhos de reintegração. Cada runa carrega em si uma potência, uma imagem primitiva que pode servir como guia num processo de individuação e retorno à vida plena.
A utilização consciente das runas pode atuar como um ritual de ressignificação. Por exemplo, a runa Ansuz representa a comunicação divina, o sopro de Odin, e pode ser usada como símbolo de reconexão com a inspiração e a verdade interior. Já Raidho, ligada à jornada, ao movimento e ao destino, pode auxiliar o sujeito que se sente estagnado a retomar o fluxo vital. Quando alguém em estado de limbo começa a trabalhar com símbolos como esses visualizando, meditando ou desenhando , está iniciando um diálogo com as forças profundas da psique. É uma forma de dizer ao inconsciente: “eu estou pronto para lembrar quem sou”.
Mais do que uma prática mágica, trata-se de um ato ontológico. Os rituais simbólicos funcionam como âncoras de sentido. Como diz Mircea Eliade (1957), “o homem arcaico vive na repetição dos mitos, pois é aí que reencontra o tempo sagrado, o tempo da criação”. Ao ativar uma runa, o sujeito contemporâneo está, conscientemente ou não, invocando essa dimensão sagrada. Ele rompe com o tempo linear e esvaziado do cotidiano e adentra um tempo mítico, onde o sagrado ainda pulsa e onde as forças que movem o ser podem ser novamente acessadas. Assim, símbolos que antes pareciam apenas “decoração mística” ganham vida, tornando-se pontes entre o eu fragmentado e a totalidade psíquica.
Esse processo não é imediato, nem indolor. Envolve atravessar as próprias sombras, questionar os condicionamentos e, muitas vezes, enfrentar o medo de viver plenamente. Viver de verdade, com propósito, presença e potência é sempre um ato de coragem. Como lembra Clarissa Pinkola Estés (1992), “ser nós mesmas causa muita inveja. Ser quem somos exige coragem e confiança em algo maior que a lógica.” Os símbolos, como as runas, são instrumentos dessa confiança. São mapas, bússolas, espelhos. Eles nos dizem: “há um caminho”, mesmo quando tudo parece opaco e sem sentido.
Portanto, sair do limbo não é apenas “voltar a viver”, mas renascer. É um processo alquímico no qual a matéria bruta da estagnação é transmutada em ouro psíquico, presença, criatividade, direção. A ativação simbólica, com ferramentas como as runas, é uma via de acesso às forças que estavam adormecidas. E quando essas forças despertam, não se trata mais de apenas pagar boletos ou funcionar em sociedade, mas de viver com alma, com potência, com verdade. Como nos antigos ritos de passagem, aquele que retorna do limbo volta diferente: mais inteiro, mais centrado, mais vivo.
Que cada um possa, então, ouvir o chamado que sussurra das profundezas: o chamado para sair do limbo e recordar-se como ser vivo, criador, consciente. As runas estão aí não como respostas prontas, mas como lembretes gravados no tempo: lembretes de que há uma força em nós que nunca deixou de pulsar, apenas aguardava ser lembrada.
Referências Bibliográficas:
Byung-Chul Han. A Sociedade do Cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.
Heidegger, Martin. Ser e Tempo. Petrópolis: Vozes, 2012 (original de 1927).
Jung, Carl Gustav. O Homem e Seus Símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1964.
Eliade, Mircea. O Sagrado e o Profano. São Paulo: Martins Fontes, 1957.
Estés, Clarissa Pinkola. Mulheres que Correm com os Lobos. Rio de Janeiro: Rocco, 1992.
Pennick, Nigel. The Complete Illustrated Guide to Runes. London: HarperCollins, 2002.










